
Em Ijuí ergueram um trono com cifras de capital, embora a cidade conserve o sotaque de interior.
O prefeito passa a ganhar mais que Porto Alegre, supera Caxias do Sul e Pelotas, e ainda ultrapassa o próprio governador do Estado, feito raro que desarruma qualquer tabela.
No plenário chamam isso de revisão técnica; na padaria chamam simplesmente de exagero.
Vereadores brindam com solenidade calculada, enquanto o carnê do IPTU engorda no correio.
Dizem que um drone passeou sobre telhados e transformou varandas em justificativas fiscais.
Mapas coloridos viraram argumento oficial, e argumentos viraram números impiedosos.
A prefeitura fala em modernidade cartográfica; o contribuinte fala em carteira vazia.
Servidores políticos celebram eficiência urbana, trabalhadores comuns contam moedas no mercado.
Há algo teatral nesse contraste elegante, uma corte que dança em tapete vermelho.
Lá fora, bairros discutem parcelamento, medindo paredes que sempre estiveram ali.
Porto Alegre, com arrecadação gigantesca, paga menos; Caxias industrial respira com salário menor; Pelotas portuária também fica para trás.
Enquanto isso, Ijuí veste roupa de metrópole rica sem ter o mesmo cofre para sustentar o figurino.
A justificativa vem embrulhada em legalidade, como doce caro servido em prato de lata.
Ninguém nega a lei citada com pompa, mas todos sentem a falta de razoabilidade.
O reajuste do trabalhador mal acompanha o pão e desaparece antes do fim do mês.
Mesmo assim será esse trabalhador que pagará o drone, o mapa e o novo contracheque.
Na tribuna usam palavras polidas e serenas que soam bem para quem nada desembolsa.
Na rua usam contas riscadas em papel velho, tentando descobrir de onde virá o dinheiro.
Ijuí ostenta salário de metrópole orgulhosa, mas carrega contas de município pequeno.
Essa desproporção passeia sem vergonha, visitante ilustre em casa apertada.
Luis Fernando Arbo
Advogado