
Inventaram um novo esporte nacional. Não exige leitura, nem esforço, nem talento. Basta olhar um texto bem escrito e decretar com ar de especialista: “isso aí é inteligência artificial”.
Pronto. Está resolvido.
É o triunfo do preguiçoso com opinião.
Não se discute a ideia, não se enfrenta o argumento, não se escreve melhor. Apenas se carimba. É mais confortável. Evita o constrangimento de admitir que alguém estudou, leu e escreveu melhor.
Há uma turma que não suporta a existência de quem pensa. O pensamento alheio ofende. A boa escrita irrita. A reflexão provoca alergia.
E aí entra a muleta moderna. Se não consigo fazer, ninguém pode ter feito. Se fez, só pode ser máquina.
É de uma pobreza que chega a ser comovente.
Escrevo desde os 15 anos. Literalmente escrevo. Papel, caneta e sola de sapato. Atravessava a cidade com textos manuscritos para entregar ao Edmundo Pochmann, no Jornal da Manhã. Ali começaram as primeiras publicações. Sem algoritmo, sem busca no Google, sem nada além de vontade.
Depois vieram centenas de textos. Leituras de Nietzsche, Schopenhauer e Kant. De Voltaire, Rousseau e Camus. De Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov. De Orwell, Russell e Hume. No Brasil, Machado de Assis, Lima Barreto e Rui Barbosa. Isso só para não cansar o leitor.
Não era mágica. Era hábito.
Passei pela Revista Stampa com a coluna Sem Floreios, quatro anos escrevendo com ironia, crítica e algum incômodo. Porque texto que não incomoda é bilhete de elevador.
Escrevi na Trincheira do Direito, no Jornal Semente. Passei pelo Imparcial do Guedes, convivendo com o Netuno, que ensinava mais em silêncio do que muito professor em discurso.
Também escrevi no Hora H, no Portal Ijuí.com do professor Hilário Barbian, quase diariamente, empilhando textos como quem insiste em pensar. Também escrevi e escrevo no portal Ijuinews, do valoroso amigo Abel Oliveira.
Já são mais de 4 mil artigos. A maioria escrita quando nem existia esse conforto moderno de digitar qualquer dúvida e receber resposta pronta.
Era leitura, memória e teimosia.
E agora aparece o gênio de ocasião. Ele não escreve, não publica, não constrói nada. Mas identifica inteligência artificial com a segurança de quem nunca escreveu uma linha relevante.
É curioso. Nunca produzem nada digno de suspeita, mas desconfiam de tudo.
Não é crítica. É inveja com Wi-Fi.
Querem colocar todo mundo na mesma vala porque não suportam a ideia de que existe diferença. Existe quem se dedique e quem opine. Existe quem construa e quem apenas critique.
Ainda existem os artesanais.
E esses continuarão escrevendo, pensando e incomodando. Para desespero eterno dos que só sabem acusar e nunca criar.
Luis Fernando de Almeida Arbo
Advogado
A Burrice com Wi-Fi