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O caso Vini Jr. e o racismo nosso de cada dia

Por, Prof. Dra. Elaine dos Santos

Matéria Publicada em: 27/05/2023

Não acompanho televisão, perdi a paciência com os mesmos assuntos repetidos à exaustão durante dias. Como sou revisora de textos acadêmicos (dissertações e teses), boa parte do meu dia é vivido diante de um computador e, em alguns momentos “de folga”, leio alguns sites mais ou menos confiáveis e gosto de acompanhar a opinião popular sobre fatos do momento em redes sociais.

Às vezes, o “achômetro” nas redes sociais faz rir, por vezes, é irritante em função da sua alienação. O caso da tal capivara no estado do Amazonas foi, por exemplo, uma situação típica de falta de informação e engajamento alienado. Deu pena!

Mais recentemente, uma das pautas recorrentes é o caso Vini Jr. hostilizado na Espanha. No mínimo, desde 1992, como graduanda em Letras, eu tenho ciência que “sudacos” são muito malvistos na Europa, passando por frequentes humilhações. Aquela cena do filme “Bacurau” em que os dois sulistas são executados pelos estrangeiros é didaticamente exemplar sobre o que somos na ótica internacional – brasileiros, latinos.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão por absoluta pressão da Inglaterra e sem um plano de absorção daquela mão de obra, sem qualquer ideia sobre como os ex-escravos seriam recebidos no meio urbano. Muitos “acomodaram-se” em situação insalubre na região portuária do Rio de Janeiro e, no início do século XX, Pereira Passos levou a efeito a operação “Bota-abaixo”, destruindo os casebres, aterrando o local e instituindo o que conhecemos, hoje em dia, como Aterro do Flamengo – “limpava-se” o centro da cidade daquela escória humana que o “emporcalhava”.

Florestan Fernandes em livro que trata da inserção dos pretos na sociedade de classes no Brasil afirma que as mulheres ainda conseguiam trabalho nas lides domésticas, afinal, haviam trabalhado como cozinheiras, mucamas, mas aos homens legou-se a fama de vagabundos, no meio urbano, eles desconheciam tarefas básicas, eram egressos do meio rural e só sabiam lidar com a terra.

Sim, e Vini Jr.? A sua situação é lamentável, mas eu fico pensando nas crianças, nos adolescentes e nos adultos que moram em vilas, que são os “candidatos” preferenciais – segundo estudo recentemente publicado – para abordagem policial. Fico pensando no menininho negro à saída da padaria que pede um troquinho. Fico pensando no homem negro, que trabalha no serviço pesado da construção civil por salários escorchantes. Fico pensando em todos nós, pobres, com extrema dificuldade de acesso a serviços de saúde.

Não faz muitos anos, uma mãe mestiça confidenciava-me que a sua filha, uma jovem mulher, saíra em nossa cidade à procura de emprego, levava um bom currículo para apresentar. No regresso para casa, desesperada, desabafou: “Negra, gorda, moradora de vila, nunca vão me dar trabalho”. Todos os dias, em inúmeros lares brasileiros, o desespero, o desânimo se abatem.

Não tenho esperança de que o caso Vini Jr. desperte – ainda que fosse apenas em parte da população que se acha branca – algum sentimento de respeito à cidadania dos nossos irmãos pretos. Uma lástima!

Prof. Dra. Elaine dos Santos

Revisora de textos acadêmicos 

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